Muitos críticos de literatura costumam afirmar que os livros importantes permanecem sempre atuais por independerem do contexto e do momento em que foram criados. A obra A fada que tinha ideias, de Fernanda Lopes de Almeida, vem corroborar essa tese.
Não é exagero afirmar que se trata de um livro maravilhoso. Destinado às crianças, causa alegria e prazer aos leitores de todas as idades. No enredo, uma fadinha, Clara Luz, não se cansa de exercer as habilidades de um ser de muita curiosidade benigna e criatividade incessante. Ela torna alegre e surpreendente a sua e a vida de todos que a rodeiam.
Clara Luz é aliada da verdade, da insubmissão - com causa - e da inspiração que resulta em beleza, a cada toque de sua varinha de condão. A fada inovadora faz chover colorido; prepara iguarias, como os bolinhos de luz; convence sua professora de Horizontologia a conhecer de perto os horizontes novos que anseia revelar. Mas Clara Luz faz mais, muito mais.
A protagonista de A fada que tinha idéias é também, simbolicamente, porta-voz do antiautoritarismo: seja por não se ater às obrigatórias receitas de mágica do Livro das Fadas, seja por nunca temer a rabugenta Rainha das Fadas, que tratava suas súditas com rédea curta.
A própria autora escreveu o livro originalmente num período em que o manto da ditadura militar encobria a realidade brasileira. Naquela época, uma delicada fadinha como Clara Luz podia ser acusada de subversiva e até mesmo encarcerada.
A fada que tinha idéias foi publicada em 1971. Agora, em sua 27ª edição, ficou, nas palavras da autora, "muito bonita, mais colorida ainda, portanto mais parecida com o mundo de Clara Luz, que é um mundo de alegria". A fadinha não faz por menos: transforma positivamente o reinado que habita e inunda de felicidade o coração de seus admiradores.