O século XX foi marcado pela queda de paradigmas ligados a diferentes universos: nas artes, no comportamento e até em temas ligados a princípios iluministas. Por um incrível paradoxo, esse século gerou uma globalização liberal que desafia os mais sagrados ideais. Deve-se reconstruir? Com base em que valores? Luc Ferry, filósofo humanista, autor de Aprender a Viver, mostra em Famílias, Amo Vocês que essa revolução surge da intrigante e pouco conhecida história da família moderna e do casamento por amor.
Política e vida privada na era da globalização.
"Não há nada mais democrata e moderno do que o tema da família", a-firma Luc Ferry, ex-ministro da Educação e um dos mais polêmicos pensadores da França. Para o filósofo, que acredita que o mundo vive o nascimento de um novo humanismo, atualmente a verdadeira meta da existência para a maioria das pessoas - o que dá sentido, sabor e valor à vida - situa-se basicamente na vida privada. "E essa evolução só se torna compreensível quando colocada em perspectiva no interior de uma história, a da família moderna, em que a família de modo algum é um tema exclusivo da ‘direita', como tantas vezes se repetiu, de maneira impensada e mecânica, mas, pelo contrário, é o mais belo apanágio da aventura democrática. A vida amorosa ou afetiva sob todas as suas formas, os laços que se criam com os filhos no decorrer da educação, a escolha de uma atividade profissional enriquecedora também no plano pessoal, a relação com a felicidade, mas também com a doença, o sofrimento e a morte, ocupam um lugar infinitamente mais eminente que a consideração de utopias políticas, aliás, inabordáveis", escreve o autor no prefácio de Famílias, Amo Vocês.
A verdade é que a família moderna fundada no casamento por amor é uma instituição muito recente. No Antigo Regime não existia o casamento por amor, e sim para transmitir um nome, uma herança, uma linhagem. É no seio dessa nova estrutura de família, baseada no sentimento, que se desenvolvem novas formas de solidariedade e também novas questões políticas. Ferry questi-ona no livro os motivos que levaram a sociedade a pôr em dúvida os princípios que dois séculos antes pareciam os pilares da civilização européia moderna: "Como me esforçarei para demonstrar, o advento da família moderna e do ca-samento por amor, que se tornou, pouco a pouco, o ideal e depois a regra das sociedades contemporâneas, alterou todo o jogo. Sob o efeito dessa inovação que revolucionou a vida cotidiana dos indivíduos, o sagrado mudou de sentido ou, melhor dizendo, de encarnação. Abandonou progressivamente as entidades tradicionais, que se supunham grandiosas pois inumanas - divindade, hierar-quias sociais aristocráticas, nação, pátria, ideais revolucionários -, para se es-tabelecer, cada vez mais solidamente, no coração do menos divino, quer dizer, na própria humanidade."
No primeiro capítulo de Famílias, Amo Vocês, "Um século de descons-trução: O ‘crepúsculo dos ídolos e o fim dos grandes objetivos'", o autor escla-rece como princípios de sentido e de valor que formavam os quadros tradicionais da vida humana desmoronaram. Para Ferry, as causas dessa "perda das referências" devem ser questionadas: "O século passado dedicou-se à descons-trução das tradições, assim como à elevação potencial do individualismo - as duas caminham juntas -, mas falta compreender o porquê, bem como entender o que essa evolução dos costumes e das mentalidades eventualmente trouxe de novidade e, se for o caso, de vantagem."
"Frente à desapropriação democrática: Grandezas e misérias da globali-zação capitalista", o segundo capítulo, trata da atual falta de controle dos seres humanos sobre o curso do mundo. O autor sustenta que a vitória do liberalismo e da globalização tornou as pessoas desprovidas de qualquer domínio real sobre o andamento do mundo e, por isso mesmo, desresponsabilizadas como nunca.
Segundo o filósofo, o medo é uma das paixões dominantes das socieda-des democráticas: "Temos medo de tudo: da velocidade, do álcool, do tabaco, da costela de boi, das transferências de mão-de-obra, dos organismos genetica-mente modificados (OGM), do efeito estufa, do frango, dos micro-ondas, do dumping social, da precariedade, da Turquia, do presidente americano, da ex-trema-direita, das periferias, da globalização et cetera e tal." Para o autor, a cada ano um novo medo se soma aos antigos, de forma que assistimos a uma ver-dadeira proliferação da angústia. De forma inédita, as sociedades tendem a des-culpabilizar o medo, tornando-o uma paixão positiva, um ingrediente de pru-dência e até mesmo de sabedoria. O medo ganhou a posição de iminente paixão política. A angústia não causa vergonha. Pelo contrário, é exibida. E a grande questão é o fato de o poder público também estar paralisado pela angústia. "Como, de fato, se sentir representado, se aqueles que encarregamos de manter as coisas seguras não têm mais capacidade real para isso? É trágico o resultado dessa situação: a impotência pública é tamanha que nossas democracias ficam praticamente sem ação", conclui Ferry.
"A sagração da intimidade ou o nascimento de um novo humanismo", terceira questão apresentada em Famílias, Amo Vocês, discute como o cresci-mento dos valores da intimidade, que caracteriza fortemente as sociedades de-mocráticas, não deve ser interpretado como um "recolhimento individualista", uma regressão "neoliberal", uma renúncia aos afazeres do mundo. "O cresci-mento dos valores da intimidade representa, pelo contrário, um formidável po-tencial de alargamento do horizonte: a verdade de um humanismo afinal maduro e não, como em geral se acredita, seu desvio para o egoísmo e para a atomização do social", defende o filósofo.
No quarto e último capítulo, "O que fazer? Como a história da vida pri-vada reinventou o coletivo", Luc Ferry reflete sobre como a política, uma ativi-dade que visa por excelência à esfera pública, pode levar em conta - ou mesmo se beneficiar com elas - as revoluções que abalaram seu oposto natural, a esfera privada. "Sendo menos violenta e espalhafatosa do que outras, a revolução da intimidade produz efeitos profundos, a longo prazo, e não se pode pretender deduzi-los a priori. A questão exige, por isso mesmo, maior reflexão, e é a isso que este livro, modestamente, gostaria de convidar o leitor. Em seu conjunto, a política moderna, desde o final do século XVIII, para não entrar em épocas pre-cedentes, colocou a esfera pública infinitamente acima da esfera privada. Em caso de conflito entre as duas, sempre a segunda foi sacrificada em favor da primeira, como se pôde verificar por ocasião de todas as guerras, que, aliás, eram conduzidas por homens", diz o autor.
Em Famílias, Amo Vocês, Ferry conclui que a política tende, cada dia mais, a se tornar, primeiro e antes de tudo, um auxiliar da vida privada. Ela será um simples instrumento a serviço do brilho e do sucesso da vida das pessoas.