Entre receitas, lembranças e afetos, A fantástica cozinha da dona Carmen é muito mais que um livro de culinária: é um mergulho na memória. A. C. Espilotro reconstrói a própria história a partir da cozinha da mãe, figura central que transforma ingredientes simples em experiências duradouras. Mas há aqui também um movimento íntimo e silencioso: ao tentar refazer as receitas maternas, o autor descobre a si mesmo. Cada prato é uma tentativa, cada erro um desvio da memória, cada acerto uma forma de reencontro. Cozinhar torna-se, assim, um gesto de investigação afetiva. De padarias familiares no Ipiranga e na Lapa às mesas fartas de domingo, cada preparo carrega não apenas técnica, mas herança: a tradição de famílias italianas que atravessaram o Atlântico trazendo consigo receitas, modos de preparo e um modo de viver; tradições que, em terra estranha, deixaram de ser apenas repetição para se tornarem invenção. Aqui, o leitor encontra mais do que receitas, encontra histórias. O frango recheado que nasce de um curso improvável na avenida Paulista, a lasanha que exige precisão e memória, o molho de tomate que anuncia o domingo antes mesmo do café da manhã. Distante da lógica convencional dos livros de receitas, a obra se organiza através do funcionamento da lembrança: fragmentada, sensorial, profundamente pessoal. Este livro é, assim, uma homenagem à mãe, à família, ao afeto envolvido nessa relação , mas também um percurso de descoberta. Ao colocar as mãos na massa, o autor recompõe sua própria história e nos lembra que, às vezes, é preciso refazer um caminho receita por receita para finalmente entender de onde viemos.
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