"Os contos aqui selecionados, na brevidade com que constroem seus enredos, flertam com o insólito, o inexplicável, nos fazendo questionar a racionalidade com que pretendemos ler os acontecimentos, ou melhor, com que acreditamos entender o que acontece. Há neles um ar de mistério que não se dissolve (e que felizmente não precisamos compreender). É muitas vezes no espaço íntimo da casa ou das relações pessoais, permeadas pelo afeto, que esse estranhamento aparece com mais força, gerando uma sensação que é ao mesmo tempo incômoda e intrigante. A atmosfera é reconhecível, mas há algo que nos escapa. Para onde essa história vai nos levar? Esta parece ser a pergunta norteadora feita naturalmente quando começamos a leitura de cada um dos contos aqui reunidos, enquanto nos reconhecemos nas angústias ali elaboradas. Ao final, no entanto, os desfechos parecem não coincidir em nenhum dos casos com a hipótese inicial de leitura, de forma que ao longo de todo o livro seguimos nos surpreendendo pela não obviedade dos encaminhamentos." Cláudia T. Alves TRECHO DA OBRA Constantemente em viagem, fico mais tranquilo. Habitando de forma transitória lugares que não têm nenhuma implicação comigo, em nenhuma parte do meu viver, consigo evitar as ofensas, conter as rupturas. Por isso parti, continuo partindo. Os desencontros, os conflitos ainda existem, mas acontecem em um teatro aberto, um contínuo alhures. E há sempre a possibilidade de descer, interromper o trajeto. O curso da própria vida, para escolher um outro. Rapidamente e sem consequências do tipo. Com o indispensável em um recipiente anônimo, o essencial de mim sempre comigo. Se, por qualquer razão, a situação se torna insustentável, limito-me a trocar de trem. E recomeça.
Marca: Não Informado