Brutalidade fascina. Não é de hoje que nos atraímos pelo selvagem, o instinto que urra em busca do ser primitivo, aquele que sufocamos dentro de inúmeros compartimentos. Também não é de hoje a compreensão da dicotomia que nos parte em duas: o que seríamos caso não devêssemos satisfações e o que somos graças aos moldes da convivência em sociedade. O médico e o monstro, obra publicada no apagar das luzes do século XIX, é a narrativa mais famosa sobre o embate. E os estudos de psicanálise da época se debruçaram sobre nossa luta inglória de dar a mão ao eu social e fugir do eu bruto. O foco de Carolina Panta se direciona para a selvageria de mulheres brutas. São mulheres que se negam a obedecer às regras que tentam nos impor. Em Novilha, a mãe de Letícia sonha com uma filha bem educada, como são as filhas da vizinha Leocádia. Hipocampo, com homenagem à poesia de Szymborska, fala de uma mulher forçada a lembrar da rotina de seu casamento. O casal mais feliz do mundo aborda a vida da esposa que faz questão de ignorar todos os conselhos que recebeu. Ofícios divinos aos sábados são ocupações de senhoras respeitáveis que incluem um passeio nada convencional às suas rotinas. Os contos são de escuta melodiosa, é possível ouvir a voz que narra, especialmente naqueles em que ousadias na linguagem são propostas. Em outros, de vozes mais neutra, questões cotidianas ganham protagonismo. Em Doze alças, uma idosa com os dias contados se recusa a morrer, enfrentando as decisões práticas da filha controladora. Capivaras no campanário fala de um casal em férias a observar uma família de roedores que nada no lago em frente à cabana. A metáfora da vida a dois se explicita quando o macho passa a roer um dos alicerces da casa. Personagens-bicho e suas revoltas fazem de Lama bruta um elogio à selvageria. Em tempos tão extremos, é interessante acompanhar a fúria da natureza. "Este livro é pleno de estesias, muitas delas evocando os espaços do Sul, que, assim, pela palavra certa, ganham dimensão universal. O que move toda essa exploração, o que dá sentido a estes contos, entretanto, é a dimensão humana de suas personagens, sempre perplexas perante o real e sempre à busca do encontro. Carolina Panta, escritora premiada, comprova que a arte é um continuum de aquisições técnicas e, em especial, de potencialização de nossa sensibilidade." - Luiz Antonio de Assis Brasil.