O livro que Zé Luiz Rinaldi nos presenteia não cessa de fazer ecoar a pergunta: o que é um pai? Como nascem os pais, ou, o que seu texto nos ajudará a ver, através da via que é a sua: como nasce um pai? Alguns acenos da psicanálise podem ser trazidos para essa conversa e auxiliar a encaminhar uma resposta, alguma resposta, a essa pergunta? Ao menos, é a aposta aqui, talvez ela possa trazer meios de deixar a pergunta ressoar e propagá-la como questão. [...]. Ser pai, assumindo-se como tal, implica esse “vestir-se” com algo que não se sabe bem, e que “fez as vezes” de pai para cada um. É com esse não sabido, esse algo de estranho, que se pode ocupar esse lugar, se for possível ocupá-lo. Há a transmissão estranha de algo não sabido, e que será, no entanto, assumido. Mas qual é a função do pai, dessa veste-pai na compreensão psicanalítica? [...]. Lemos neste livro como o poeta se põe em marcha, como o filho desencadeia esse mover-se poeticamente rumo ao pai: ao pai que se quer, que se pode ser; percurso feito de estranhezas, de embaraços. O trabalho de ser pai, nesse encontrar onde a carne vincula, irmana-se em seu escrito ao de ser poeta; antes, o ser poeta pode emprestar seu saber-ser na carne a esse que se engendra pai. Se poietés em grego quer dizer a um só tempo o que faz poesia e o que cria, lemos com Rinaldi que a partir do filho, do fato do filho, do susto do filho, ele assume a tarefa de poetar-se/engendrar-se como um pai. — Carla Francalanci.
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