Salitre é um empreendimento de experimentação radical, que transforma o balneário Cassino, localizado na cidade de Rio Grande, no extremo sul global, no epicentro de uma radical experiência estética que mistura homicídios e processos ilegais de financiamento de produções artísticas com velhos dramas da vida humana. A prosa de Azevedo – com todos os seus já conhecidos componentes disruptivos – arrasta para as periferias simbólicas da pós-modernidade toda a centralidade crítica que uma obra literária pode suportar no século XXI. O autor, que foi por três vezes vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura, dobra a aposta de sua incomum e inventiva ficção. Em Salitre os procedimentos narrativos presentes nos romances anteriores do autor (a saber: Pequeno espólio do mal, de 2018; A manipulação das Ostras, de 2020; e Metal de Sacrifício, de 2023), se transformam em um jogo semiótico no qual a ousadia literária confirma o autor como um dos raros nomes capazes de reunir legitimidade antropológica com valor estético. Em tempos nos quais se discute – às vezes de forma estéril – as relações entre forma e conteúdo, Azevedo aponta, com coragem, para a urgência de uma produção contemporânea complexa, que consiga articular ambições estéticas com as demandas sociais que o mundo determina.