Com uma forte unidade temática, Tatuí é uma narrativa densa e coesa em torno de um eu-narrador que deriva pela cidade do Rio, costurando memória amorosa, deriva urbana e tensão política sob o “regime dos militares”. O livro inteiro gira em torno de luto, desejo, medo e resistência, sempre ancorados em trajetos muito concretos que funcionam como estações de uma longa rememoração afetiva. Ao propor uma mistura entre crônica de rua, diário amoroso e romance político, o romance é construído através do acúmulo de microcenas, letreiros, grafites, falas ouvidas ao acaso e anúncios –, de “pai-nosso dos fiados” a outdoors e lambe-lambe. O espaço urbano é transformado, assim, num grande palimpsesto de vozes –, o que lembra, em certos momentos, o mosaico de Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, e, em outros, o fluxo de consciência de Clarice Lispector, ainda que com uma pegada mais popular e satírica. A oscilação e fusão entre os dois personagens femininos, às vezes dentro da mesma cena, introduz um elemento quase fantasmático e ligeiramente onírico, que renova o clichê do triângulo amoroso e aponta para uma experiência de tempo em que passado e presente se enroscam.