Terra sem giz: bem-vindo ao Brasil real O conto enquanto nocaute Após o romance O dilema de Baltazar, este conjunto de contos revela uma nova faceta autoral. Para além da distinção de gêneros, vale o axioma de Cortázar (“o conto ganha por nocaute”): aqui, a variação de abordagens mantém um mesmo tom humanizado, com ousadias estilísticas bem aproveitadas. Narrador como solução literária Em “Quando ele descobriu que ela era preta”, por exemplo, há uma intrusão metadiegética — lembrando Machado de Assis, Mark Twain e Dom Quixote — que funciona como escudo metafórico contra a descrição crua. A narrativa evita o abismo da indiferença sem recorrer ao panfleto: resolve-se no campo literário, pelo uso do narrador, e não no discurso vazio. Cultura pop e ética Referências à cultura pop e imersões ocorrem também em situações de desigualdade, identidade e desumanização. Em “O troco”, “O espírito do capitalismo preso na garagem” e “A festa de quinze anos”, o texto transita com naturalidade entre o lírico, o cômico e o crítico, sem abrir mão da escuta. Personagens e o Brasil real Os personagens — inclusive os menores — não são caricatos: gestos, hesitações e falas revelam tensões morais, afetivas e sociais. O livro compõe um retrato parcial, mas significativo, de um Brasil real, sem perder de vista a dimensão ética desse abismo.