"O livro Transferências cruzadas nos convida a pensar a história da psicanálise atentos à hipocrisia engendrada e perpetuada, por vezes, pelo próprio projeto freudiano. Nessa perspectiva, o livro não é apenas um rico apanhado das instituições de psicanálise, no que estas determinam formas legítimas da formação, ou seja, não se alia à tradição historiográfica do movimento psicanalítico perpetuada por Ernest Jones que engendra a criação de hagiografias heroicas, elegendo personagens e instituições responsáveis por salvar a psicanálise do perigo de perder sua própria identidade (Klein, 2024). O exercício historiográfico de Transferências cruzadas fornece uma contribuição para uma guinada política da história da psicanálise e suas instituições, retirando-a de qualquer lugar de neutralidade. A neutralidade, sabemos, é o pior política que ela é a política disfarçada de não política. Os cruzamentos transferenciais destacados por Kuperman revelam a sobreposição de aspectos em jogo nas repetições do movimento psicanalítico: questões teóricas, clínicas, institucionais e políticas. Ou seja, o que move a transmissão é o interesse por manter um legado. Qual legado será transmitido e qual será a forma por meio da qual esse legado será transmitido não é algo que esteja desconectado da própria metapsicologia, clínica e história. Questão que permanece no movimento psicanalítico desde sua criação." Érico Andrade e Thais Klein Marca: Não Informado