Associar o ambiente urbano a um organismo não é uma ideia nova. No século V, em De Civitate Dei, Santo Agostinho afirmava que “toda cidade é um corpo vivo”. O curioso dessa poderosa imagem é que parece não fazer muita diferença à que cidade ela seja aplicada. Isto é, num instigante paradoxo, a metáfora tende a aderir naturalmente aos espaços artificiais concebidos pelo homem para a sua existência e a convivência em sociedades, cujo grau de complexidade ultrapasse os tradicionais parâmetros clânicos ou tribais. Assim, a riqueza dessa alegoria é de tal magnitude que, mesmo autores muito mais recentes, como Baudelaire e Poe, referindo-se, não a uma Antiga Roma decadente, mas a Paris e a Londres, já em pleno século XIX, não permaneceram alheios ao seu apelo orgânico. Para o particular aparentemente trivial de recortes de paisagens que não se dão conta de que são paisagens, mas que apresentam aspectos do caráter de cada cidade fotografada, volta-se o olhar de Silvia Neves, revelando surpresas Urbanas. Felipe Dourado A série “Exposições de Bolso” tem, por objetivo, documentar, em livro, os trabalhos de fotógrafos pouco conhecidos ou totalmente desconhecidos, amadores, semiprofissionais ou profissionais. Imagens que, de outra forma, seriam esquecidas e finalmente perdidas podem assim ganhar um registro permanente, e mais um canal de circulação.